martes, 1 de abril de 2014

São resolutivos e sustentáveis os modelos de atenção à saúde baseado no uso intensivo de tecnologias duras?



Uma das principais causas do incremento dos gastos em saúde e da insustentabilidade dos sistemas se deve à incorporação de novas tecnologias (duras), como medicamentos e aparelhos/máquinas. No entanto, cabe problematizar o que de fato produz saúde. Qual é a engrenagem principal do processo-saúde? Vivemos em uma sociedade em que cada vez mais se produz a medicalização, normatização e a protocolização da vida. Busca-se encaixar as experiências em parâmetros generalizáveis, minimizando o espaço da singularidade – o que se encaminha ao uso de medidas e soluções ‘rápidas’ e ‘instantâneas’, como o uso abusivo e desnecessário de fármacos, que muitas vezes são respostas passageiras à raiz do problema. 
 
 No âmbito da gestão sanitária, diversos autores criticam o “gerencialismo” aplicado a este campo, pois parte de estratégias de linha de produção: de ‘montagem’. Esta se transforma na gestão baseada em resultados, inspirada pelo setor industrial, no qual o elemento-base são os materiais, diferentemente da saúde, cujo objetivo principal é a melhoria da saúde da população e por tanto lida com pessoas e não com materiais ou máquinas. A forma de ‘produzir’ saúde implica considerar os aspectos subjetivos do encontro entre profissional e usuário, tornando-se relevante o vínculo e confiança estabelecidos. Estes podem ser considerados como os principais elementos da engrenagem que move o processo-saúde.

Singularidade e cogestão: dimensão micro do processo-saúde

Tanto o uso de técnicas e intervenções baseadas em evidências, como a utilização de protocolos, planejamento, indicadores e metas são importantes. No entanto, estas ferramentas não contemplam toda a complexidade de variáveis da produção do cuidado em saúde e a singularidade dos indivíduos, dos coletivos e dos fenômenos. A questão não é deixar de avaliar os resultados ou de estabelecer metas, mas de investir em modelos de gestão centrados na ideia de democracia institucional, de cogestão e de motivação, de construir indicadores em conjunto e articuladamente com os atores do processo, de uma gestão participativa, como no modelo de ‘colegiado de gestão’ – que tão pouco se aborda.

É de suma importância investir na dimensão micro do processo de saúde que inclui a relação entre profissionais e usuários: apostar na autonomia, corresponsabilidade, compreensão das singularidades, pois na ausência destes componentes, os serviços de saúde estão fadados a pouca resolubilidade ou até mesmo ao fracasso. Os sistemas de saúde carecem do investimento em tecnologias LEVES (relacionais) de cuidado e da educação permanente dos profissionais de saúde.

 
Caixa de ferramentas tecnológicas (duras-leves)
           Émerson Merhy postula que na relação profissional-usuário se utilizam ‘caixas de ferramentas tecnológicas’, compostas por saberes e seus desdobramentos materiais e imateriais, que fazem sentido de acordo com o lugar que ocupam nesse encontro e conforme as finalidades que almeja. Estas ferramentas são classificadas em três tipos de tecnologias e configuram-se distintos modelos de atenção à saúde dependendo de como estas se combinam:

·       Tecnologias duras: vinculada ao manuseio de aparelhos e equipamentos que possibilitam perscrutar, acessar dados físicos, exames laboratoriais e medicamentos utilizados nas intervenções terapêuticas. Esses processos consomem trabalho “morto” (das máquinas) e trabalho vivo de seus operadores.  

·       Tecnologias leve-duras: se referem aos saberes agrupados que direcionam o trabalho, constituindo-se por normas, protocolos e o conhecimento produzido nas diversas áreas do saber no âmbito clínico e epidemiológico. Apesar de terem o trabalho já capturado, possuem certo grau de abertura e flexibilidade de acordo com cada situação.

·        Tecnologias leves: correspondem às ferramentas que permitem a produção de relações envolvidas no encontro trabalhador-usuário mediante a escuta, o interesse, a construção de vínculos, de confiança; é a que possibilita mais precisamente captar a singularidade, o contexto, o universo cultural, os modos específicos de viver determinadas situações por parte do usuário, enriquecendo e ampliando o raciocínio clínico e os processos de cuidado. É neste âmbito que se produz o trabalho vivo-em-ato, que o usuário tem maiores possibilidades de interagir e ser escutado. 

 
 
Os sistemas de saúde centrados na Atenção Primária (AP) possuem menor densidade tecnológica dura e se configura com alta complexidade de ações no âmbito relacional (tecnologias leves). Estas possuem menor custo financeiro ao sistema e o é elemento fundamental do cuidado em saúde. No entanto, por que se investe tão pouco no âmbito micro da atenção em saúde? Por muito tempo a preocupação maior foi pela incorporação das tecnologias duras e leve-duras, que sem dúvida têm papel importante nos tratamentos. Porém, sem o uso adequado e eficaz de tecnologias relacionais (leves), corre-se o risco do uso não racional das tecnologias duras, repercutindo na medicalização e realização de exames desnecessários. Pior que isso, é o possível dano causado aos pacientes pelo uso equivocado destes aparatos e ferramentas. Por tanto, investir em tecnologias leves possibilita o conhecimento contextualizado e aprofundado das pessoas e situações em que vivem - o que seguramente abre caminho para a produção/promoção de saúde com melhores resultados e uso racional e não prejudicial dos recursos a um custo acessível e sustentável ao sistema de saúde.
 

 
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                                                                                                     Liana Della Vecchia

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