martes, 11 de marzo de 2014

Modelos de Atenção insustentáveis: a cronificação dos modos de viver



Na última década, tem se falado muito na transição epidemiológica e incremento das doenças crônicas na população mundial, emergindo a necessidade de mudança de modelo de atenção, pois os atuais centram-se nas condições agudas. Cabe questionar o que estamos produzimos com os modelos de atenção e o que mesmo queremos? O paradigma predominante continua sendo o centrado na doença e nos saberes bio-médicos. Produz-se a cronificação dos modos de viver e a medicalização da sociedade, colocando os indivíduos no lugar de eternos dependentes dos serviços sanitários. O indivíduo deixa de ser uma pessoa e torna-se um “crônico” e assim passa a ser chamada e visto pelo sistema sanitário. Tanto que o modelo é para os “crônicos” e não para as pessoas com condições crônicas. E parece não haver outras possibilidades para (con)viver com a nova condição de saúde. Trata-se não de negar sua existência, mas de, ao invés de restringir sua terapêutica medicalizante e focada no diagnóstico, de ampliar o olhar para a pessoa dentro do seu contexto de vida e demais elementos pertencentes ao processo. Estimula-se mais a medicalização que a mudança de hábitos de vida ou caso se incentive este, é no sentido “obrigatório”, rígido e restrito. Não são tomados em conta os elementos estressantes, momento de vida e os aspectos sociais, na maioria dos casos. E logo as respostas são: “ele não adere ao tratamento”. Por que será?

 Há uma maior implicação com os aspectos clínicos diagnósticos que com os demais processos da vida. Os modelos atuais de atenção tal e como estão estruturados não têm demonstrado eficácia na atenção às condições crônicas. No entanto, a criação de novos modelos mantém o paradigma dominante, planejado dentro de um sistema fragmentado. A diferença das propostas é a criação de espaços específicos para os chamados “crônicos”, como foi o caso da saúde mental, que mais segmenta e fragmenta que integra as pessoas à sociedade. Enquanto não houver uma mudança de paradigma real, cujo foco de intervenção seja a pessoa dentro do seu contexto, valores e cultura e não a doença, a criação de diferentes modelos tende a continuar fracassando.

A cronificação criada pelo próprio sistema de saúde coloca a pessoa como dependente dos serviços de saúde, retira sua autonomia e possibilidade de escolha, colocando-a em um lugar de não saber cuidar de si. Como se os profissionais de saúde detivessem o “saber” sobre o “outro”. É como se o modelo de cuidado ao imputar um rótulo diagnóstico tão verticalizado dissesse: você está condenado a esta prisão “eterna”  e necessitará tomar remédios para o resto de sua vida. Não que em alguns casos não seja necessário o uso de fármacos, mas as intervenções, em sua maioria, caminham nesta direção e não se investe em outras formas nas quais o sujeito pode recorrer a mudanças em estilos de vida, a aprender a (con)viver com a nova condição de saúde de forma a controlá-la e diminuir o seu impacto. As terapêuticas seguem um caminho da clínica restrita e não ampliada. E como queremos respostas diferentes se nos mantemos no mesmo paradigma?

Qual é o modelo de cuidado que mais usufrui da construção dediagnósticos e de terapêuticas condenatórias do ponto de vista da existência? Modelos médicos de cuidado altamente centrados em gastos no campo tecnológico independente da sua efetividade. Este modelo de crônicos criam sistemas quase impossíveis de serem sustentados. O modelo americano é um exemplo disso, apresenta altos gastos e baixa eficiência, sendo insustentável. E a tendência é que outros países adotem estratégias americanas, como a modificação do modelo inglês e importação do “management care” para a organização da rede básica inglesa, que incorpora conceitos do gerencialismo onde quanto mais uma equipe economizar, mais lucratividade terá. Será que queremos compartilhar este modelo?
  
Um dos grandes nós é como vamos articular o conhecimento à prática, repensar os paradigmas e cuidado em saúde, introduzir mecanismos de cogestão democrática, trabalhar com o conceito clínica ampliada e compartilhada e modificar a formação dos profissionais baseado no paradigma de saúde ampliada, pois quem opera os sistemas de saúde são sim as pessoas com tecnologias leves mais do que com tecnologias duras.

O objetivo do sistema de saúde deveria ser ampliar a capacidade dos cidadãos cuidarem de si mesmo, de saberem onde procurar auxílio quando necessário. Aumentar a autonomia independente da condição de saúde, diminuir a dependência dos usuários aos serviços e profissionais de saúde, assim como dos medicamentos.

A forma como se trabalha e se organiza o cuidado depende muito do modelo de atenção estabelecido, com qual paradigma se opera, qual o grau de autonomia (possibilidade de escolha) e de motivação dos trabalhadores e usuários, e como se dá sua implicação no processo de estabelecimento de projetos terapêuticos singulares. As estratégias de controle não tem demonstrado eficácia e por tanto, cabe à mudança de modelo e de paradigma. Não existe um modelo único e exemplar, os modelosestão aí para serem modificados, recriados e reinventados, de acordo com o que há de singular em cada contexto e cultura. E cabe sim sua constante avaliação para modificação. Aprender passa pela capacidade de escuta, observação e trocas. A clínica precisa ser reinventada, esgarçada, ampliada e compartilhada, baseada, sobretudo, na construção de vínculo e acompanhamento de vida e não somente de doenças.


                                                                                                               Liana Della Vecchia
                                                                                                                   @LianaDellaV

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